terça-feira, 13 de março de 2018

O fogo não sai da cabeça dos bombeiros
















O inverno está a chegar ao fim e há bombeiros que ainda não ultrapassaram o trauma dos incêndios do ano passado. Viram o que ninguém devia ter visto, experimentam sentimentos de culpa e impotência, sofrem com a perspetiva de regresso do fogo. O número de pedidos de apoio psicológico disparou, mas as autoridades não têm meios de resposta. Quem cuida de quem cuida de nós?

Quando saiu de casa na manhã de 15 de outubro, Paulo Rodrigues, 31 anos, não imaginava que naquele dia ia ver o inferno. As desgraças não lhe são propriamente novas – afinal é bombeiro desde os 14 e não houve verão nos últimos anos em que não tivesse de se fazer ao fogo. Ainda para mais presta serviço em Penacova, onde o IP3 se veste demasiadas vezes de estrada de morte.

«O problema é que, quando cheguei ao quartel, as equipas de combate já tinham todas partido. Então eu tive de ir numa ambulância para os incêndios e isso levou-me aos sítios onde não havia mais nada, só morte e destruição. E aquilo que vi não consigo esquecer. Vão ser muitos anos para tirar isto cá de dentro.»

Paulo tem uma banda que anima procissões e festas religiosas. Nesse dia ia tocar na romaria de Nossa Senhora da Conceição numa pequena aldeia da freguesia de Friúmes, mas não chegou a abrir a mala do clarinete. «Quando ia na estrada vi o fogo a avançar tão rápido que decidi logo voltar para trás. Ainda estava a virar o carro quando recebi uma mensagem do comandante.» Acelerou até Penacova, dez equipas já andavam no fogo.

À central chegavam notícias de vítimas em várias aldeias. «Nesse dia morreram cinco pessoas. Eu fiquei com a ambulância e tive de recolher quatro desses cadáveres.»

Na memória traz pormenores demasiado arrepiantes – e reproduzi-los agora seria um atentado gratuito à dignidade das vítimas. Mas Paulo tem ali coisas que precisa de deitar para fora. «Primeiro estive em Vale Maior, e quando cheguei a única coisa que sabia era que havia dois mortos.» A aldeia ainda em chamas e depois um homem aos gritos.

Acabara de ver os seus dois filhos ficarem presos numa arrecadação que as chamas engoliram. «Eu tinha acabado de ser pai, sabe? Agora, diga-me lá, como é que se acalma
alguém numa situação daquelas? O que é que se diz? O que é que eu podia fazer? Como é que me posso esquecer daquilo?»

A Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) está preocupada com casos como o de Paulo Rodrigues. «Sabemos que há muitos bombeiros que viveram situações aflitivas no ano passado», diz o psicólogo Rui Ângelo, líder das equipas de apoio psicossocial da ANPC. «E o nosso receio é o impacto que os próximos incêndios vão desencadear nestas pessoas.

Se em 2017 vimos gente com muitos anos de tarimba a ultrapassar o seu limite de resistência psicológica, é preciso ter consciência de que, quando se depararem novamente com as chamas, podem bloquear, reviver episódios de grande ansiedade, pôr-se a si mesmos e às suas equipas em risco.» E é por isso que é tão importante pegar neste assunto agora, antes de o fogo recomeçar.

O fogo nos meus sonhos
Os sinais de potencial trauma são identificáveis: flashbacks, irritabilidade, isolamento, pesadelos, insónias. Normalmente, dissipam-se em seis semanas, mas, quando isso não acontece, podem desenvolver-se patologias psiquiátricas mais graves. No ano passado, as equipas de apoio da Proteção Civil intervieram 843 vezes, quando nos cinco anos anteriores não auxiliaram em média mais de 300 bombeiros.

«Prestamos apoio psicológico imediato a quem necessitar e encaminhamos os casos psiquiátricos mais graves para o Serviço Nacional de Saúde», diz Rui Ângelo.
Uma grande parte dos bombeiros, no entanto, não teve com quem falar. Apesar de o sistema de socorro português estar baseado no voluntariado, faltam recursos para tratar da quebra e da recuperação psicológica dos bombeiros.

Os números falam por si: as equipas da ANPC contam hoje com cinquenta técnicos – 39 psicólogos e 11 assistentes sociais – para apoiar os 30 448 operacionais no ativo. Também eles trabalham em regime de voluntariado.

«E depois há um fator que torna tudo mais difícil. Nós só vamos ao terreno quando o comandante de uma corporação nos convoca. Um bombeiro que sinta problemas não pode contactar-nos diretamente. Então, muitas vezes dou por mim a ligar às corporações para insistir na nossa ida.»

Mesmo sendo poucos, os técnicos nunca foram convocados a Penacova, onde Paulo Rodrigues, o rapaz que toca clarinete nas procissões, viu o inferno. «Temos dois psicólogos do centro de saúde que se disponibilizaram para nos ajudar», explica António Simões, comandante da corporação. «Quem quisesse podia ir ter com eles.»

É bombeiro experimentado, um homem duro, também ele viu muito mais do que deveria naquele fatídico domingo de outubro. «Uma semana ou duas depois, ao assistir a uma conversa entre o meu segundo e uma das nossas bombeiras, é que caí em mim e percebi que tinha aqui gente muito afetada.»

Lídia Mira tem 36 anos, veio para os bombeiros arrastada pela irmã aos 18, mas fez do socorro ao próximo uma missão tão pessoal que hoje, além de voluntária em Penacova, trabalha também como socorrista no INEM. Estava na primeira equipa que chegou a Vale Maior, foi a ela que um homem em absoluto desespero se dirigiu primeiro: «Salve os meus filhos, salve os meus filhos.»

Estava um fogo danado a subir a colina, mas a mulher agarrou na mangueira e fez-se às chamas. «Eu tinha de ir. Sabia que não devia, que o fogo podia virar, mas a angústia daquele pai fez-me avançar.»

Não podia, as chamas já tomavam conta do armazém onde ambos acabariam por perecer. Um tinha 41, outro 43 – morreram abraçados. «De um lado ouvia os gritos do pai, do outro o silvo das vidas a extinguir-se. E eu não conseguia fazer nada. Nada.» Lágrimas ainda, tanto tempo depois. «Sinto uma raiva que não sai de mim, a raiva de não ter conseguido salvá-los, a raiva da impotência.»

No momento em que desistiu de lutar, agarrou-se ao colar que usa sempre consigo. Ali está inscrito o seu nome e o do filho. Assim que chegou a casa, acordou o rapaz e abraçou-se a ele. Pediu-lhe desculpa, uma e outra vez, não sabe muito bem porquê.

«Nunca voltei ali, nem sei se consigo voltar. Sinto uma culpa tremenda, estou sempre a pensar que se tivesse chegado meia hora antes a história seria diferente.» Foi isso que disse ao segundo comandante dos bombeiros de Penacova, semanas depois, quando o encontrou à porta do quartel.

Vasco Viseu, 49, estava do outro lado da colina a ver o fogo subir o vale. Chegou à aldeia de Vale Maior minutos antes da morte, num carro de comando equipado com uma pequena cisterna, mas que já não tinha gota de água.

«Tinha passado a manhã na Lousã, em combate, e agora já não sobrava nada.» Assim que percebeu que o fogo estava a entrar em Penacova ligou para a central e pediu para lhe levarem os filhos para o centro da vila. «Depois fiz-me à estrada, cada metro que passava parecia que uma árvore em chamas caía atrás de mim, a impedir-me de voltar para trás.» Era ele contra o monstro.

É isto com que sonha agora: o povo a insultá-lo por ser incapaz de salvar sequer uma casa, a perceção de um pai a pedir que lhe resgatassem os filhos e ele nada poder fazer, as labaredas a dançar à sua volta e a nítida sensação de que ia morrer nesse dia. Sentia-se fraco e inútil – logo ele, que sempre tinha sido um exemplo para os homens.

«Quando finalmente chegou a primeira equipa de combate, escondi-me atrás do carro e fiquei ali uns bons dez minutos a chorar.» Meses depois, repete as lágrimas, as mãos a passearem pelo rosto, já não aguenta este desespero. «Nunca mais dormi nada de jeito. Fui ao psicólogo do centro de saúde para ver se me receitava comprimidos, mas sei que estes pesadelos, estas memórias já duram há tempo demais. Houve alguma coisa em mim que mudou. Não sou o mesmo homem.»

Semanas depois do trauma, quando Lídia se virou para ele e disse «segundo comandante, isto não está nada bem», os dois desataram num pranto que o comandante Simões pensou estar já ultrapassado. Foi então que Paulo Rodrigues lhe contou o resto da história. De como depois de ir resgatar os cadáveres dos dois irmãos socorreu uma família que tinha tido um acidente quando fugia do incêndio. De como uma mulher lhe contou que o pai ainda estava preso numa aldeia e ele correu com uma motosserra a abrir caminho pelo mato incandescente para resgatar um homem carbonizado que lhe morreu nos braços. E de como, no fim disto tudo, fora buscar a uma adega o corpo de uma mulher que tinha sucumbido nas chamas e a achara tão pequena, tão pequena, que por momentos teve dúvidas se aquele não seria o cadáver de um animal doméstico.

O comandante António Simões percebeu nessa altura, semanas depois da tragédia, que os seus bombeiros estavam em desespero. Pode não ter chamado as equipas de apoio psicossocial da ANPC logo depois da tragédia, mas convocou ao quartel João Rosado, chefe da unidade de psiquiatria e diretor do centro de tratamento de trauma dos Hospitais da Universidade de Coimbra.

«Um bombeiro está continuamente exposto a situações traumáticas, mas é essencial perceber o impacto desse trauma em cada indivíduo», diz agora o investigador à Notícias Magazine. «Estamos a fazer um estudo sobre os fatores de risco – antes, durante e depois de os traumas acontecerem. Com isso vamos preparar uma resposta, que não pode passar só pela terapêutica, também tem de passar pela prevenção.»

Lídia está a receber apoio de uma psicóloga do INEM, Vasco decidiu voltar às consultas no centro de saúde, Paulo diz que a família tem conseguido ser o suporte para desviar os pesadelos. Mas continua a ser preciso criar uma estratégia nacional para que os operacionais do terreno aprendam a lidar com as catástrofes.

Rui Ângelo, da Proteção Civil, percebe a iniciativa da Universidade de Coimbra e confessa: «Idealmente, as nossas equipas deviam estar agora no terreno a dar ferramentas de resiliência aos operacionais, a prepará-los para os próximos incêndios.» Diz que há um projeto-piloto a ser testado no distrito de Santarém. Aconteceu por iniciativa de uma corporação, não do governo central. «Se funcionar talvez consigamos aplicá-lo no resto do país.»

«Tu não podes morrer»
Horas depois de atravessar Penacova, no dia 15 de outubro de 2017, o fogo chegou a Santa Comba Dão «com a força de um touro e a velocidade de um galgo». A frase é de Rui Leitão Morais, 29 anos, bombeiro desde que se lembra de ser gente.

Ele, o pai e dois irmãos são todos voluntários – e quando foi dado o alerta vermelho prepararam-se todos para o combate. «Foi um dia muito duro que nenhum de nós pode esquecer. O mais difícil de tudo foi perceber que o meu pai estava encurralado pelo fogo, a pedir ajuda. Nunca lhe tinha ouvido aquele pânico na voz e foi aí que me faltou o chão.»

Rui percorria o concelho num carro de comando para avaliar o que se passava. Era ele que estava à frente das comunicações com o comando da ANPC. De repente a voz do pai no rádio: «Está tudo completamente em chamas, casas e tudo, não temos hipóteses.» O leitor é capaz de se lembrar deste relato, ele foi transmitido dois dias depois da tragédia na TVI.

Do outro lado da linha perguntam a chefe Morais onde está. E João Morais, 58 anos e um dos bombeiros mais experientes da corporação, responde num tom aflitivo: «Povoação do Coval, povoação do Coval. Isto está uma calamidade. Isto está uma calamidade. Precisava aqui de mais um carro, isto vai arder tudo.» A resposta é frustrante: «Não tenho, João. Não tenho.» Depois o silêncio. As duas horas seguintes passou-as Rui com um nó na garganta, sem saber se o pai estava vivo.

Entretanto o centro da cidade enchera-se. O IP3 tivera de ser fechado e Santa Comba Dão tornara-se o abrigo improvisado para centenas de automobilistas. O mesmo na linha de comboio, trezentos passageiros nas imediações do quartel. O fogo começou a chegar ao centro urbano e Rui fez-se a ele.

«Passava por pessoas que se punham à frente do jipe porque queriam que lhes salvássemos a casa, ou que fôssemos buscar alguém à aldeia, e nós tínhamos de contorná-las, continuar caminho. Não lhes podíamos valer.» No Coval, João Morais parou a comunicação quando ouviu um camião explodir. «As línguas da chama tinham sete metros, eu nunca visto uma coisa assim. Quando ouvi aquele estrondo pensei: vou agora. Deixei-me cair de joelhos no chão e pensei nos meus filhos, que também andavam no fogo. Não sei como sobrevivi, mas sei que, assim que pude passar a estrada, fui ao quartel ver se os rapazes estavam bem.»

Tinham passado duas horas desde a última comunicação. O aparelho de rádio caíra ao chão e fora devorado pelo fogo – Rui foi um dia depois ao terreno recuperá-lo e guarda-o agora como uma relíquia. Quando se viram no quartel, pai e filho não se abraçaram nem trocaram uma palavra. «Olhámos um para o outro e estava tudo dito.»

Falaram sim dois dias depois, quando o comandante Hélder Mota convocou os seus homens para um plenário em que cada bombeiro partilhou com os demais o que tinha vivido naquele dia. «Foi muito duro ouvir tudo aquilo, às tantas tive de sair para dar uns pontapés numa parede», diz o líder dos bombeiros de Santa Comba. Custou-lhe particularmente ouvir o trauma na voz do chefe Morais, «um homem que nunca vi quebrar».

No final do plenário, pediu a todos que falassem com as equipas de apoio psicossocial da Proteção Civil. E todos falaram. Rui diz que está bem, o pai diz que ainda lhe vem à memória aquela angústia. Agora as coisas estão calmas, quando o fogo voltar logo se vê.

Para muitos dos bombeiros que viveram experiências traumáticas, o pânico maior é voltar ao lugar onde experimentaram o inferno. Mas assim que Rui Rosinha, 40 anos, saiu do hospital, pediu para a ambulância que o levava a casa parar no cruzamento onde o fogo lhe mudou a vida. Acabara de passar quatro meses internado, dois dos quais em coma. No dia 17 de junho de 2017 o camião de bombeiros onde viajava teve um acidente na EN236 – que liga Figueiró dos Vinhos a Castanheira de Pera e onde nesse dia morreram 47 pessoas.

«Quando entrámos na estrada fez-se noite, um calor inacreditável, e de repente o chefe Tomé, que ia ao volante, grita que vamos bater.» Um Mercedes que fugia do incêndio embateu de frente no veículo. «Saí e vi logo as labaredas à nossa frente. Ainda tentámos aproximar-nos do outro carro, percebemos que havia gente lá dentro mas ninguém respondia. Era a gasolina, podia explodir a qualquer momento, então recuámos para um cruzamento onde havia uma nesga de céu.»

Ainda procurou as luvas de proteção e o capacete, mas com o acidente não conseguia encontrar nada. Tinha o telemóvel no bolso, ligou à mulher. «Estava um calor terrível e telefonei para me despedir dela. Disse-lhe que íamos morrer todos. Depois disse que a amava muito e que amava muito os nossos filhos. E desliguei.»

O calor apertava e da estrada apareceram quatro pessoas a correr, provavelmente fugidas dos carros. Rosinha e os outros bombeiros formaram um cordão à volta destas pessoas, abriram os braços e envolveram-nas numa redoma, à espera que o fogo passasse. Uma hora depois chegava ajuda, os cinco bombeiros caídos por terra mas vivos.

Um deles, Gonçalo Conceição, acabaria por não resistir aos ferimentos – mas isso Rui só soube meses mais tarde, quando acordou do coma induzido. Ele estava num estado lastimável, queimaduras de terceiro grau em vinte por cento do corpo e os pulmões à beira do colapso. Mesmo durante aquele tempo em que esteve inconsciente diz que se lembra do que lhe disse o filho na noite de dia 17, quando esperava ainda consciente a transferência para o hospital: «Tu não vais morrer. Tu não podes morrer.»

Desde que acordou, os pesadelos tornaram-se piores do que as dores. «Estou sempre a sonhar que vou pelo mato a andar com pessoas que não conheço e não chego a lado nenhum. É o fogo nos meus sonhos. E depois acordo constantemente suado. Também não consigo dormir.»

Pediu apoio e está a ser acompanhado semanalmente no Hospital Sobral Cid, consultas de psicologia e psiquiatria. «Mas sabe, quando pedi para a ambulância parar naquele cruzamento, eu comecei a fazer o meu luto. Agora sinto-me um jogador lesionado que não pode ir a jogo, mas a coisa que mais quero é poder voltar a salvar vidas. Amo o meu país e é isso que me motiva. Não sei como reagirei quando voltar a ver fogo, mas sei que é falando sobre isso que vou ultrapassar o trauma. Tenho muito medo dos meus companheiros que não falam com ninguém e podem estar a desenvolver stress pós-traumático. Por isso eu apelo para que eles vão, falem, contactem psicólogos, peçam ajuda às famílias. Não se armem em fortes porque isso pode estragar-vos a vida.»

Nuno Pereira, 44 anos, é dos que precisaram de umas boas semanas até se decidir a falar. Entrou para os bombeiros aos 14, seguindo as passadas do pai e do tio, aos 18 fez o curso na Escola Nacional, era daquela adrenalina que ele gostava. «No dia 16 de outubro, pela primeira vez em 30 anos, pensei desistir disto.»

O segundo comandante dos Bombeiros Voluntários de Tondela estava na aldeia do Tarrastal quando o muro de chamas tomou conta da aldeia. «As mangueiras derretiam com o calor, os vidros pareciam querer derreter, chovia fogo do ar, às tantas vi um caixote do lixo de 800 litros voar e embater contra o carro.»

Na aldeia estavam dois velhotes, e ele tinha ido com uma equipa socorrê-los. A água da cisterna acabou quando o fogo se fez mais bravo. «Eu e um companheiro conseguimos esconder-nos num casebre de tijolo quando as chamas passaram por nós. Nessa altura tive a nítida sensação de que a minha vida ia terminar. Lembro-me de pensar que os meus filhos iam crescer sem pai no meio de um lugar que se tinha tornado um cemitério. Mas ainda não foi desta que Deus quis vir buscar-me.»

Um mês depois de quase ter morrido percebeu que a ansiedade e irritabilidade por que estava a passar não era normal. «Então fui ao psicólogo, que me tem ajudado bastante. Sabe, aquilo que está a ser mais difícil para mim é conseguir perdoar-me. Não consegui ajudar as pessoas, não consegui salvar-lhes as vidas nem as casas – e era para isso que eu vivia.»

À sua volta tem um mundo de cinza a lembrar-lhe o fracasso. Em dezembro, a sua cidade voltou a viver uma tragédia, quando oito dos seus conterrâneos pereceram num incêndio numa associação recreativa em Vila Nova da Rainha, durante um torneio de sueca. «Voltei a confrontar-me com o fogo e percebi que o apoio psicológico que recebi foi essencial para conseguir desbloquear. Hei de continuar a salvar vidas. É só isso que sei fazer.»

O inverno está a chegar ao fim e só quando chegar novamente o fogo se conhecerá a verdadeira dimensão do trauma nos bombeiros portugueses. As equipas de apoio psicossocial da ANPC aconselham que, quando um carro partir para combate, mesmo que não seja para enfrentar mais do que um fogacho, os chefes das equipas sejam pormenorizados na descrição daquilo que vão encontrar e que revejam o plano de ataque, para reforçar a sensação de controlo a quem eventualmente o possa perder. E continuar a falar, ventilar, deitar cá para fora. Os verdadeiros heróis, afinal, são os que têm coragem de expor a sua fragilidade.




Texto Ricardo J. Rodrigues

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A terra prometida dos judeus pode bem estar nas montanhas portuguesas

















Há um novo fenómeno no interior português. Milhares de turistas judeus estão a invadir lugares como Castelo de Vide, Belmonte ou Trancoso para conhecer o património judaico nacional. No último ano, o número de visitantes aumentou exponencialmente. Há novas linhas aéreas entre Portugal e Israel, novas agências especializadas, novos hotéis e lojas kosher. História de um retorno.
Nas cozinhas dos hotéis que vão nascendo junto à raia, toda a gente sabe para que lado fica Jerusalém. «Essa foi uma das primeiras coisas que tivemos de aprender quando os turistas judeus começaram a chegar», diz António Lopes, proprietário do hotel Monte Filipe, um quatro estrelas com 50 quartos nos arredores de Castelo de Vide. Até 2015 acolhiam em média 150 hóspedes hebreus por ano, gente que vinha à procura das suas raízes no interior português. Mas em 2017 esse número subiu para mil, e este ano esperam dobrar o milhar de dormidas em junho. «Há um verdadeiro boom no turismo judaico e isso está a revelar-se um balão de oxigénio para nós. Neste momento, estamos a treinar todos os nossos empregados para nos adaptarmos às necessidades desta nova clientela. Sobretudo na cozinha, onde a comida tem de ser confecionada sob os preceitos kosher. A carne, por exemplo, tem de ser cortada na direção de Israel.»
A semana passada, a Secretária de Estado do Turismo fez uma digressão pelas comunidades semitas dos Estados Unidos para promover o país como destino religioso judeu. «A ideia é mostrar Portugal como lugar tolerante e seguro e com uma herança judaica muito forte», dizia Ana Mendes Godinho à Notícias Magazine na véspera da partida. «O número de israelitas a visitarem-nos explodiu e queremos que este nicho convoque gente também do outro lado do Atlântico. Portugal pode ser visitado enquanto destino final mas também pode ser um stopover [paragem por uns dias] para quem viaja para Israel» Depois desta ação em território americano, aliás, o governo planeia estender a promoção ao Canadá e ao Brasil, onde também existem comunidades relevantes. «Este mercado interessa-nos. É um turismo que vai descobrir o país, que vai descobrir o interior, que traz investimento e empreendedorismo aos territórios mais deprimidos.»
Os números do INE são esclarecedores. Se no início desta década contavam-se em média cinco mil hóspedes israelitas por ano nos hotéis nacionais, em 2017 o número disparou para 105 mil, um aumento de mais de 2000 por cento. Este boom teve efeitos diretos na aviação civil. Em novembro último, a TAP e a EL AL – Air Israel abriram um acordo de codeshare para simplificar as conexões entre os dois países nos aeroportos para onde ambas voassem. Mas, um mês depois, a companhia de bandeira israelita percebeu o interesse nos voos para Portugal e decidiu reforçar uma linha com sete ligações semanais diretas entre a capital portuguesa e Telavive – que entra em funcionamento em março.
Não há dados que digam quantos destes turistas viajam por vocação religiosa, mas nas pequenas cidades e vilas do interior, onde resistem os traços mais emblemáticos da presença judaica em Portugal, está a acontecer uma revolução. «O mercado israelita tornou-se em 2017 a segunda nacionalidade estrangeira a visitar o concelho, atrás apenas de Espanha, que fica aqui a 15 quilómetros, e ultrapassando países como Inglaterra, Alemanha, França ou Itália», diz António Pina, presidente da câmara de Castelo de Vide. «Há três anos, o nicho judaico representava menos de 3 por cento do nosso turismo, agora ultrapassa largamente os 20 por cento. Isto está a criar um dinamismo como há muito não víamos no município. Temos casais israelitas a mudarem-se para aqui para abrirem turismos rurais especializados, temos os hotéis da região a adaptarem-se às novas exigências, vamos abrir um cinco estrelas na cidade até ao fim do ano. Numa zona completamente abandonada, escondida atrás da serra,  isto é o melhor que nos podia ter acontecido.»
A hotelaria é a face mais visível da mudança que os judeus estão a trazer à raia. Em abril de 2016 abriu o Belmonte Sinai Hotel, a primeira unidade do país criada propositadamente com foco no turismo judaico. Está classificada com quatro estrelas e tem 27 quartos. «Das 16 mil dormidas que recebemos anualmente, mais de metade são judeus», diz o diretor, Ricardo Abreu. Sobretudo israelitas, americanos, brasileiros e argentinos. «Além da comida, dedicamos grande atenção ao sabbath, que começa no por do sol de sexta feira e só termina no sábado à noite. É um dia sagrado de descanso em que não se pode por exemplo tocar em dinheiro ou tecnologia. Então desligamos as televisões, entregamos chaves manuais em vez das eletrónicas, os quartos ficam apenas equipados com luzes de presença.» Os elevadores, da marca Schindler, o industrial alemão que salvou 1200 judeus do Holocausto, também não são usados em dia santo.
A história repete-se 65 quilómetros acima, no Hotel Turismo de Trancoso, também de quatro estrelas. «Abrimos há oito anos, mas de há dois para cá começámos a receber excursões atrás de excursões e agora decidimos instalar duas cozinhas, uma delas vocacionada exclusivamente para alimentação kosher», diz Júlio Sarmento, o proprietário. «Em dois anos, o mercado judeu, que não existia, passou a representar 25 por cento da nossa faturação e temos tido aumentos de lucro na casa dos 10 por cento. Em 2017 as contas fecharam nos 440 mil euros, o que é extraordinário numa região desertificada como a nossa.» Esse sucesso tem efeitos colaterais, diz. Para abastecer as refeições, criaram acordos com fornecedores especializados em toda a Beira Interior. «Nos distritos da Guarda e de Castelo Branco estão a aparecer cada vez mais produtores de carne, queijo e azeite que seguem as leis da Tora. Isto está a mexer muito com a nossa economia.»
Mas porque é que, 500 anos depois de serem expulsos do país, os judeus estão a regressar agora, precisamente agora, a Portugal? «Há dois motivos essenciais para as coisas terem mudado», diz a historiadora Carla Santos, que a partir de Trancoso investiga a presença judaica no país. «O primeiro é o real funcionamento de uma Rede Nacional de Judiarias a partir de 2015. O segundo é a lei do mesmo ano que garante dupla nacionalidade a quem provar ter como ascendentes judeus sefraditas, que foram expulsos de Portugal no século XV.»
Vamos por partes. A Rede Nacional de Judiarias foi criada em 2011 por iniciativa da Região de Turismo da Serra da Estrela e integra 37 municípios portugueses. Tem sede em Belmonte e tem feito um trabalho notável de catalogação do património material judaico que existe no país. No final de 2014, a EEA, uma instituição norueguesa que financia projetos que reduzam a disparidade entre o Norte e o Sul da Europa, decidiu atribuir uma bolsa de cinco milhões de euros à rede portuguesa para que se pudessem recuperar edifícios e criar centros interpretativos. A partir daí, abriram-se museus, recuperaram-se sinagogas, colocaram-se placas sinaléticas onde elas não existiam. A organização tremeu em novembro do ano passado, quando o seu secretário-geral, Marco Baptista, acabado de perder as eleições autárquicas na Covilhã, desapareceu levando alegadamente consigo 115 mil euros dos cofres da instituição. Ainda assim, um mês depois, a EEA anunciou novo investimento de cinco milhões de euros nas judiarias portuguesas.
A lei que concede nacionalidade portuguesa aos descendentes de judeus expulsos de Portugal nos séculos XV e XVI foi iniciativa do governo de Passos Coelho. Entrou em vigor em março de 2015 e, desde então, o interesse forasteiro pelo país é inegável. Há 12 mil pedidos de cidadania de estrangeiros e 1800 deles já foram aprovados. Um dos problemas da concessão é encontrar o rasto genealógico – afinal, todos os documentos da Inquisição foram queimados. Mas até isso está a abrir um novo nicho de mercado no país. «Desde que a lei foi aprovada, não há semana em que não tenha investigadores licenciados em História, contratados por judeus de Israel, Estados Unidos ou Brasil, a virem para a nossa biblioteca e o nosso centro de arquivo», diz Carla Santos. A secretária de estado do turismo concorda: «Há todo um mercado na investigação genealógica que se está a desenvolver paralelamente ao turismo judaico.»
Para Elisha Salas, rabino de Belmonte, este interesse renovado por Portugal é puramente emocional.  «Veja a história deste povo. Desde Moisés ao Holocausto, passando pela Inquisição, a história dos judeus é uma história de perseguição constante. A partir do momento em que tornamos a ser aceites, temos uma grande obsessão por descobrir as nossas raízes, perceber de onde vimos.» Na vila onde mora, há aliás a última comunidade criptojudaica conhecida do mundo. Os judeus de Belmonte viveram em total sigilo durante cinco séculos, até aos anos oitenta do século passado. Nas suas casas ainda há sinagogas secretas, ladaínhas aprendidas em surdina, rituais que insistem fazer à porta fechada. «Na televisão israelita passam constantemente reportagens sobre Belmonte», diz ele. «E eu sempre tive a sensação que a história deste povo, destas 25 famílias que resistiram durante tanto tempo, que pagaram cara perseverança de se manterem unidos, nomeadamente com os problemas de saúde decorrentes da consanguinidade, é mais conhecida em Telavive do que em Lisboa ou no Porto. Agora que os turistas hebraicos chegaram, é claro que eles querem vir aqui.»
Apesar das duas principais cidades do país terem também assistido a um enorme incremento no fluxo do turismo judaico, é aqui que, nas terras esquecidas pelos portugueses, que ele tem maior impacto. «O turismo representa cinco milhões de euros para o nosso concelho, é um dos vetores essenciais da nossa economia. E hoje posso dizer que a fatia mais importante vem precisamente deste nicho», diz o presidente da câmara de Trancoso, Amílcar Salvador. «Pense no que isto representa para um concelho como o nosso. Todos os meses entram no centro de interpretação judaico 800 pessoas, este ano o número ainda aumentou 30 por cento. São pelo menos 25 mil visitas numa cidade que não tem mais de três mil habitantes. Agora, uma coisa é certa, temos de estar preparados para acolhê-los.»
Na faixa onde a presença judaica foi mais forte – a linha montanhosa do interior centro – as câmaras apostam forte em melhorar a oferta. Em Belmonte foi criado em 2005 um espetacular museu judaico que conta a história dos hábitos religiosos da comunidade local, e que em 2017 aumentou as visitas em 33 por cento, apesar de ter estado fechado quatro meses para remodelação. Em Trancoso, o centro de interpretação judaico Isaac Cardoso está a ser renovado, tem uma sinagoga para acolher cerimónias religiosas dos judeus que a visitam, e em março do ano passado abriu portas o Museu Bandarra, dedicado ao profeta medieval acusado de judeu pela Inquisição. Em Castelo de Vide, está prestes a abrir a Casa da Inquisição, num antigo palacete na judiaria da cidade, onde há alçapões que dão acesso a esconderijos secretos e mobiliário que se abre para garantir acesso a uma secretíssima sinagoga. Também terá um centro de genealogia, para ajudar judeus e investigadores a encontrarem as origens das suas famílias. 
«É realmente a estes sítios que as pessoas querem ir», diz Isaac Assor, diretor geral da Alegretur, uma agência turística portuguesa especializada neste nicho de mercado. «Os circuitos começam por norma na capital e terminam no Porto, mas as experiências mais marcantes acontecem sempre na Cova da Beira.» Há cinco anos, diz ele, não acolhia mais de dez grupos por ano, agora o número quintuplicou. «Vêm normalmente excursões de 30 a 40 pessoas, maiores de 50 anos, de classe média-alta. E o seu interesse está concentrado precisamente na faixa onde se fixou a população de Sefarad, que é o nome hebreu da Península.» As viagens duram em média uma semana. Também podem ir a Tomar, onde existe uma sinagoga sefradita, a Castelo Branco, Idanha-a-Nova ou Covilhã, onde há marcas judaicas bem preservadas, mas o facto é que Castelo de Vide, Belmonte e Trancoso são as paragens obrigatórias, a alma dos milhares que se esconderam, foram convertidos e acabaram por se converter em cristãos-novos.
No centro de uma das judiarias mais intactas do país, a de Castelo de Vide, Carolino Tapadejo criou um museu para homenagear o legado familiar. Presidente da câmara durante toda a década de 1980, descendente de ferreiros judeus e ele próprio escultor de ferro, é uma autoridade na história sefradita da cidade. Quando terminou a carreira autárquica, decidiu tirar o curso de turismo cultural – e foi aí que começou verdadeiramente a explorar aquele legado esquecido durante séculos. Hoje, os seus dias são passados a dar palestras sobre a história judaica da cidade. «Vou constantemente a Israel, sou professor na univiersidade da Extremadura, em Espanha, tenho viajado pelo mundo todo a falar da nossa Sefarad», atira. «Depois acolho grupos estrangeiros que vêm aqui. Falo hebraico e isso ajuda.»
Acompanhá-lo pelas ruas da judiaria é toda uma lição de História. «Os primeiros relatos da presença judaica vêm de 1320, quando sete famílias de Gibraltar se instalam aqui para desenvolver o negócio das tinturarias. Mas é no século XV, claro, que as coisas mudam de figura.» Em 1492, os reis católicos expulsam toda a comunidade de Espanha e muitos rumam a Portugal, onde D. João II aceita acolhê-los. «De repente, Castelo de Vide, que na altura tinha 800 habitantes, vê-se com um acampamento com quatro mil judeus à porta da cidade. O país na altura não tinha mais de um milhão de pessoas e pelo menos 100 mil hebreus dão entrada nesse ano nas nossas fronteiras. Há de ter sido uma revolução.»
Ao contrário da população católica, os sefraditas tinham um nível elevado de educação. Isso ameaçava o grupo que detinha o monopólio da cultura – o Clero. «É por isso e pelo poder económico crescente dos judeus que D. João III cria em 1536 a Inquisição e o povo sefradita recebe ordem de expulsão.» Abrem-se tribunais em Lisboa, Coimbra e Évora, que até à abolição dos autos de fé pelo Marquês de Pombal, em 1773, condenam à morte 40 mil pessoas. «Ou saíam, ou eram queimados vivo, ou se convertiam em cristãos-novos e eram expropriados de todos os seus bens. Mas muitos continuavam a praticar a sua religião em segredo e a cidade está apinhada de marcas dessas práticas secretas.»
Desde logo na arquitetura das casas. Os edifícios judeus têm sempre duas portas, uma para a habitação, outra para a loja. E depois há candelabros de sete velas esculpidos nas ombreiras das portas, ou cruzes a assinalar a nova cristandade. «Muitas tradições subsistem. Aqui, por exemplo, é comum ver as mulheres varrer a casa às sextas feiras e deixar uma vela acesa escondida dentro de um pote na noite de sexta para sábado, durante o sabbath.» A comida é outro sinal claro. Enchidos feitos de aves, como as alheiras do norte, ou de cabra, como os maranhos do centro, serviam para despistar as autoridades eclesiásticas. «Mas talvez o traço principal aconteça na semana da Páscoa, quando se mata o cabrito ou o borrego e se deixa o sangue do mesmo à janela, como fazia no primeiro testamento bíblico o povo de Israel.»
Foi durante uma das viagens a Israel em que contou estas mesmas histórias na televisão que Carolino Tapadejo viveu um dos momentos mais emocionantes da sua vida. Uma mulher contactou-o depois da sua aparição no canal israelita e contou-lhe que a sua família tinha fugido de Castelo de Vide no século XVI. «Era uma senhora de uma certa idade e com muito pouca mobilidade. Disse-me que a sua família passara de geração em geração a promessa de um dia aqui voltar. E, nisto, abre a mala e mostra-me uma chave muito antiga, de ferro.» Era a chave da casa daquela família na cidade alentejana, guardada durante mais de 400 anos à espera do retorno. Carolino tira a chave do bolso e mostra-a com um mar nos olhos. «Ela pediu-me que a guardasse. Nunca tinha estado em Portugal, mas esta era a terra dela.»
Essa ideia do retorno está a ser revivida uma e outra vez. Veja-se Arieh Hatchvel, um brasileiro de São Paulo descendente de judeus sefraditas que, depois de dez anos a viver em Israel, decidiu estabelecer-se em Belmonte. «Casei com uma judia portuguesa daqui e quando percebi esta história comecei a sentir um chamamento, como uma década antes tinha sentido o chamamento de viajar para Israel. É como se esta fosse uma nova terra prometida para mim.» Daniela Mourão, a sua mulher, viveu dois anos em Haifa com os pais, Moisés e Isabel, membros da comunidade criptojudaica da vila. «Eu estudei gestão hoteleira e, quando saí daqui, não havia oportunidades de trabalho. Mas isso está a mudar e é por isso que decidimos voltar.»
A casa da família Mourão fica num dos bairros novos da vila e tem uma enorme estrela de David em frente ao portão. Moisés construiu o monumento ainda antes de emigrar para a terra prometida. «Tínhamos aqui uma vida boa, mas a Tora diz que um judeu deve estar com o seu povo, e por isso decidimos emigrar.» Foram dois anos bons, mas Portugal continuava a bailar-lhes na cabeça. «Há duas semanas decidimos que era tempo de voltar. Este aumento do turismo dá-nos a possibilidade de construir aqui uma vida decente.»
Para mostrar o que fala, o homem decide abrir ir buscar o projeto arquitetónico que está a planear para o centro da vila. É mais um hotel de quatro estrelas, vocacionado exclusivamente para hóspedes judeus, mais uma vintena de quartos. «Concorremos a financiamentos europeus, mas ainda não tivemos sorte. Haveremos de construí-lo de outra forma», suspira. Enquanto isso nõ acontece, decidiram abrir uma loja de produtos kosher, que vai abrir portas esta semana em Belmonte. Produtos alimentares, artigos religiosos, tudo o que sirva para abastecer esta nova vaga de turismo que começou a chegar. Chama-se a Casa da Judiaria e abri-la é quase cumprir uma profecia. «Cinco séculos passou a minha família a esconder-se e agora, imagine, aquilo que andámos a esconder é o que toda a gente nos pede para mostrar.» Moisés ri e abana a cabeça. Às tantas as gargalhadas contagiam a mulher, a filha e o genro, está toda a gente numa alegria desbagada. Ali, nos montes do interior do país, os judeus estão em casa.


Há um grupo de turistas brasileiros a percorrer as ruas de Trancoso. Chegaram em dois autocarros de turismo e cumprem a excursão inevitável. Começaram em Lisboa, estiveram em Castelo de Vide e Belmonte, agora desaguaram ali. Andam acompanhados por uma guia local a ver os traços de judaísmo que enfeitam a arquitetura da cidade. Aqui o património é riquíssimo e as autoridades locais criaram guias dos principais pontos, em português e hebraico, para alimentar a curiosidade forasteira. Vitrais com candelabros, marcas cruciformes nas portas, até um Leão de Judah esculpido na parede de um edifício. Mas é quando entra na sinagoga do centro judaico que Fabiana Oliveira Bezerra se emociona verdadeiramente. Pernambucana do Recife, é descendente de judeus sefraditas que fugiram para a Holanda e daí para a América do Sul. Na sua cidade há uma das comunidades mais antigas do continente. A sua história não há de ser diferente dos milhares de judeus que estão a visitar o interior português. «É estranho», diz enquanto enxuga as lágrimas. «Vim ver um lugar onde nunca tinha estado e percebi que cheguei a casa. Podem passar quinhentos anos, podem até passar mil, mas quando uma terra se entranha no sangue de um povo, essa terra pertence a esse povo para sempre.»


Mesmo que o nome de Aristides de Sousa Mendes seja o mais conhecido, a promoção do turismo judaico em Portugal conta com quatro nomes de portugueses que se destacaram na resistência ao Holocausto. São os quatro cidadãos portugueses classificados como Justos entre as Nações pelo Memorial do Holocausto de Jerusalém – precisamente por terem resistido ao extermínio de judeus durante a II Guerra Mundial. O caso do cônsul de Bordéus é o mais conhecido. Ignorando as ordens de Salazar, passou vistos a 30 mil judeus que fugiam da perseguição nazi. Mesmo que tenha destruído a carreira e morrido na miséria, a história guarda-o como o homem que mais vidas salvou do Holocausto. Depois há Sampaio Garrido, embaixador português em Budapeste, que não só emitiu 70 passaportes para judeus em fuga como escondeu 12 pessoas na sua casa. José Brito Mendes, um emigrante português em França, foi declarado Justo entre as Nações por proteger uma criança judia cujos pais morreram em Auschwitz, assumindo-a como filha. E por fim um padre, Joaquim Carreira, reitor do Colégio Pontifício Português em Roma quando os alemães se instalaram na cidade. Ali acolheu, escondeu e alimentou pelo menos 40 pessoas que fugiam das autoridades nazis. Homens que arriscaram a vida para proteger outras. Portugueses. E justos.


Texto Ricardo J. Rodrigues

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Arte Sem Dono






























Através de cartazes, azulejos, esculturas ou do "stencil", o coletivo "Arte Sem Dono" exibe nas ruas do Porto o que há de bonito nesta cidade e no país. O coletivo espalha identidade nacional pelas ruas durante a noite, deixando as obras de arte espalhadas até alguém se apoderes delas